O Sol e o Desenho Urbano pelo Arq. Sidónio Pardal

Faz parte da condição humana a procura e a construção do abrigo, da casa para se proteger dos elementos climáticos e fruir de privacidade e conforto.

O calor, o frio, o sol, a sombra, a chuva e o vento são elementos que a arquitectura e o desenho urbano procuram controlar ao criarem espaços destinados à vivência humana.


Nos anos 30, o Movimento Moderno influenciado pela Carta de Atenas enfatizou a importância e os benefícios das grandes fenestrações para deixar a luz e o sol entrar no espaço doméstico da casa, sem se aperceber do nonsense da generalização deste tipo de receitas. Tem sentido que em países como a Finlândia a arquitectura opte pelas grandes janelas abrindo a casa ao exterior, mas em contraponto, num país tropical, é natural que os melhores ambientes da casa se alcancem com o predomínio de paredes espessas e pequenas janelas privilegiando a sombra.

A termoestabilidade e o controlo da luz são dois factores de maior importância na construção dos edifícios e compete à arquitectura conjugar estes valores de conforto com a componente estética.

Cada região e cada sítio pedem uma arquitectura que atenda especificamente às suas características climáticas.

O século XX, com particular ênfase a partir dos anos 60, fez de certo modo o culto do sol e do veraneio, criando a moda dos banhos de sol e levando essa prática a extremos de grande perigosidade que estão na origem de muitas doenças da pele. O sol, na generalidade do globo terrestre, é um elemento agressivo à excepção das latitudes altas. Para nos protegermos do sol utilizamos a roupa, os óculos de sol, o chapéu, o guarda-sol, o lenço de cabeça, os cremes protectores, mas as copas das árvores, seja nos espaços silvestres e por maioria de razão no meio urbano, são os mais agradáveis e frondosos protectores solares, oferecendo-nos a amenidade e o bem-estar da sombra.

A arquitectura popular desenvolveu um conjunto vasto de padrões de estruturas de composição que nos protegiam do sol: o alpendre; a casa de fresco; a latada; a pérgula; o caramanchão.

No meio urbano, os muros e as fachadas dos edifícios são elementos que podem ajudar a criar percursos de sombra, mas o desejável nas cidades modernas, onde os arruamentos têm necessariamente que ser largos, é que a sombra seja também proporcionada por uma apropriada, densa e cuidada arborização.

O copado das árvores além de proteger da radiação solar tem outros efeitos microclimáticos como seja reduzir a temperatura e cortar os ventos. É ainda de ter em conta a expressão paisagística do arvoredo na composição urbana.

O corpo humano está em permanente relação biofísica com o meio. Recebe e emite radiação térmica, é particularmente sensível à radiação solar directa, evapotranspira e é sensível à temperatura, movimento e humidade do ar. Todos estes factores são saudáveis dentro de uma banda de tolerância e conveniência, foras deste limites máximos e mínimos a saúde fica ameaçada.

Em média a radiação solar sobre o planeta Terra é de 1,94 calorias por cm² e por minuto. Uma parte das radiações solares mais perigosas são absorvidas pela atmosfera e reflectidas pelas nuvens. No entanto, uma parte destas radiações são reencaminhadas para a terra através da radiação difusa. Num dia enevoado a radiação directa pode ser praticamente nula e toda a radiação presente ser apenas radiação difusa. Já num dia de céu limpo, sem nuvens, a radiação difusa pode não ir além dos 15%.

Pode ser enganoso pensarmos que só apanhamos sol de fato-de-banho na praia, na realidade, no dia-a-dia, ocorrem muitas situações em que podemos inadvertidamente estar perigosamente expostos à radiação solar. É o caso quando viajamos de carro em que o braço, as mãos, o ombro, o pescoço e metade da face podem estar directamente expostos ao sol durante toda a viagem e, também, em passeios a pé ao longo de percursos desprotegidos. Muitos trabalhos executados no exterior, principalmente no sector da construção civil, da agricultura e da floresta, levam os trabalhadores a estarem durante horas e horas expostos à radiação solar directa.

É altura de tomarmos consciência da necessidade de nos protegermos da radiação solar, começando por alterar hábitos e crenças que estão ligados a um culto obscurantista que vê os banhos-de-sol associados a uma fonte de saúde e de energia benfazeja para o corpo que recebe as suas radiações directas.

O turismo de veraneio difundiu o sol e a praia como um produto de recreio, lazer e de saúde para além de tudo o que é razoável. O marketing do sol e da praia marcou a oferta turística durante as últimas décadas e estamos longe de moderar e esclarecer o efeito deste sector da saúde pública.

Convenhamos que seria algo radical e por ventura despropositado aconselhar e mais ainda proibir as pessoas de ir à praia, mas tem todo a pertinência informar e até mesmo exigir, que as zonas de praia estejam fartamente servidas de guarda-sóis apropriados para produzirem grandes superfícies de sombra e ajustáveis ao movimento do sol de modo a que todas as pessoas, com particular cuidado com as crianças, possam fruir da presença na praia sem necessidade de se exporem à radiação solar. É de notar, que o Instituto da Conservação da Natureza e outras entidades responsáveis por regular os equipamentos de praia têm obrigado a substituir os guarda-sóis de lona por uns pequenos chapéus de palha que produzem pouca sombra e não são ajustáveis. Neste caso, o regulador orientou-se pelos seus gostos estéticos duvidosos sem consciência de que os guarda-sóis são para fazer sombra e devem abrigar pelo menos uma família de quatro pessoas.

Na organização do espaço social é importante o controlo da radiação solar, da luz, da sombra e, no caso das habitações, é também importante que nos quartos de dormir se possa fazer o escuro durante o dia. Nas salas de aula e de conferências, onde se recorre aos meios audiovisuais, o controlo da luz até fazer a escuridão total é, também, importante.

De algum modo coloca-se-nos o desafio de desenvolver uma consciência crítica sobre os efeitos dos excessos da radiação solar sobre a pele e difundir hábitos saudáveis de gozar o sol à sombra. Neste processo o desenho do meio urbano deve valorizar a utilização abundante da árvore como elemento de composição urbana.

O arvoredo à volta da casa foi sempre um factor de conforto e de enquadramento paisagístico aprazível e, é lamentável a forma precipitada e generalizada como depois dos fogos de 2003, numa legislação a quente, influenciada por um clima de pânico, se impôs o derrube de todo o arvoredo à volta dos edifícios situados em aldeias e no meio rústico.

Diria que na nossa cultura há uma relação anormal com as árvores em meio urbano o que se revela nas podas estropiantes que por todo o país são efectuadas e, também, pela falta de falta de espaço reservado ao arvoredo. Há ainda as frequentes queixas dos munícipes a pretexto de que as árvores lhes tiram vistas ou que estão muito próximas das janelas, produzem pólens que causam alergia, que faz mal à asma e outros argumentos deslocados demonstrativos de uma relação não resolvida entre a cultura urbana portuguesa e a presença da vegetação na cidade.

Entrando em algum perfeccionismo diríamos que os elementos para criar sombra no Inverno deveriam ter a qualidade de reduzir ao mínimo a irradiação absorvendo o máximo das radiações. Já para o Verão seria o inverso, absorvendo o mínimo de radiações reflectindo o máximo. De algum modo, o arvoredo com o seu efeito termoestabilizador cumpre estas funções, por maioria de razão, fazem-no muito eficientemente as árvores de folha caduca, que perdem a folha no Inverno.

A acção consertada entre as diversas disciplinas aqui promovida pela Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo é um oportuno e inteligente contributo para difundir uma informação que diga a verdade e esclareça a população sobre a radiação solar como problema de saúde pública.

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